Conheça Carolina Maria de Jesus
(14/03/1914 – 13/02/1977)

14/07/2014

“Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora”.

Mulher, negra, pobre, semi-analfabeta e poeta de espírito livre. Essas são características de Carolina Maria de Jesus, que nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais.

Já em São Paulo, foi viver na Favela do Canindé onde, para sobreviver, passou a catar papel. Seu barraco foi construído por ela mesma, com madeira, latas, pedaços de telha e outros materiais que encontrava na rua. Criou sozinha três filhos, numa época de grande preconceito contra as mulheres, sem nunca “acertar casamento”, como dizia.

Catadora, nem tudo que Carolina encontrava, vendia: alguns livros e cadernos com folhas em branco eram guardados. Carolina lia os livros e a paixão pela escrita se impôs. Passou então a anotar nos cadernos encontrados nas ruas, observações sobre o mundo em seu redor, dividindo o tempo entre o catar papel para cuidar dos filhos e o escrever. Sua escrita reflete seu espírito livre e sua visão crítica da sociedade, que isola e discrimina os mais pobres, impondo-lhes a favela, a falta de emprego, a falta de oportunidades. E o sucesso de seus livros veio da capacidade de expressar, pelo lado de dentro, essa discriminação vivida por tantos e tantos que, como ela, tem somente a opção de aceitar sua condição e tentar sobreviver.

Como dizia: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido."

Quarto de Despejo é seu mais importante e conhecido trabalho e, já no nome, mostra essa visão aguda e crítica de Carolina sobre a realidade, pois vem de expressão que sempre entoava: “A favela é o quarto de despejo da cidade”.

No livro publicado em 1960 graças a Audálio Dantas, jornalista que conheceu a escritora e se apaixonou por seus textos, Carolina conta sua história desde que saiu de Sacramento, sua chegada a São Paulo, seu trabalho como doméstica, as dificuldades de moradia, a chegada à favela, a necessidade de se tornar catadora. O sucesso foi tanto, que vendeu mais de 80 mil cópias somente no Brasil e foi traduzido para mais de 40 idiomas.

Carolina escreveu ainda Casa de Alvenaria, em 1961; Pedaços de Fome e Provérbios, ambos em 1963. Após sua morte, em 1977, foram publicados o Diário de Bitita, Um Brasil para Brasileiros, Meu Estranho Diário e Antologia Pessoal.

Em seus textos, Carolina desafiou a pobreza e aqueles que a promovem, debateu-se contra o racismo, o preconceito contra as mulheres, mas, solitária em sua batalha, morreu miserável e esquecida. Sua própria vida, do início ao final, comprova suas críticas e sua revolta, pois representa todas as vidas embrenhadas no beco sem saída da pobreza e da discriminação social.

Carolina, a catadora de olhos abertos para a cidade, de olhos atentos ao seu redor. Senhora das letras, que se tornou poetiza do real.

“Oh São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste “viludo” e seda e calça meias de algodão que é a favela... o dinheiro não deu para comprar carne, eu fiz macarrão com cenoura. Não tinha gordura, ficou horrível.”

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